Fundamentalismo: p.ext. qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos.

A partir desta definição e sem entrar no mérito do surgimento desta palavra, vamos começar alinhando um fato: todo fundamentalismo está diretamente conectado a um desequilíbrio no desenvolvimento individual – de ordem emocional, comportamental, psicológica, espiritual (fique à vontade para questionar esta afirmação!).

O fundamentalismo pode ter diferentes origens, como por exemplo ser: religioso, econômico, étnico ou político. Todos, mantém uma essência similar e características como:

  1. Não ver: rígida adesão a certas crenças e princípios / prisão a uma linguagem e uma verdade;

  2. Dessensibilização: intolerância e falta de empatia em relação a outras visões / prisão a um centro e um coletivo (“nós contra eles”);

  3. Ausência: uma concepção do mundo em que a fonte de problemas é exterior, não o interior / prisão a um eu (não reflexivo e não desenvolvível);

  4. Destruição: a violência contra aqueles que são vistos como associados ao que é “mau” / prisão a uma vontade (fanatismo, violência).

Provocações iniciais

Quando li tais características no super recomendado livro “Teoria U” (C.Otto Scharmer), uma grande questão emergiu para mim:

Como, através do autoconhecimento, transformar pensamentos e ações fundamentalistas em soluções de integração e transformação social? 

Então, deu vontade de escrever. E, quiçá, enquanto eu exploro o poder das palavras, a resposta que demando possa emergir.

Hoje, é nítido o quanto temos perdido, como coletividade, as capacidades (1) de conexão real com o próximo, (2) de ouvir genuinamente (sem pré-julgamentos), (3) de manter coerência entre fala e atitude, (4) de cuidar dos desafios próprios antes de julgar as escolhas alheias, (5) de garantir que a informação que repassamos ao outro é verídica e completa, além de outros fenômenos negativos perceptíveis a qualquer pessoa observadora.

Analisando este cenário nebuloso, fico refletindo sobre o maior desafio de todos: encontrar e desenvolver unidade a partir da diversidade. Não uma unidade definida por um conteúdo igual para todos – isso pode ser alienação -, mas uma unidade cujos princípios de convivência sejam comuns, independente de crenças, ideologias, raça, classe social, gênero, etc.

Buscar este lugar comum, que acolhe os diferentes e que cria a partir das divergências, não é tarefa fácil. Porém, assumir essa missão é uma questão de escolha individual. Minha, sua, dele, dela, daqueles, daquelas.

Esta escolha é o primeiro passo de uma  jornada de soma e multiplicação, que envolve subtração e também, divisão. Ou seja, é uma jornada de deixar ir e deixar vir, com maturidade. Que requer uma mente aberta, um coração aberto e uma vontade aberta.

Potencializando o Autoconhecimento

Com todos estes elementos apresentados até agora, você me pergunta: como trabalhá-los em meu desenvolvimento? Como abrir minha mente, coração e vontades para fazer algo diferente daquilo que faço? Como extinguir extremismos e gerar diálogos melhores com meus pares? Como evitar discussões com quem amo?

Bem, não sei se sou a pessoa mais recomendada para te dar dicas como essas. Afinal, segundo Mário Sérgio Cortella, sou o “vice-treco do sub-troço” e eu concordo com ele. Porém, sendo vice do sub-troço, alguma responsabilidade tenho e por isso serei audacioso em apontar possíveis caminhos para este processo, assim como sou realista em me perceber como um ser imperfeito e em desenvolvimento contínuo. Vamos lá!

  1. O processo de Autoconhecimento começa com um Diagnóstico: sobre você. Retome as 4 características do fundamentalismo citadas acima (Não Ver, Dessensibilização, Ausência, Destruição) e se questione: percebo algum destes elementos em mim? Como? Relacionado ao quê? Não tenha medo e nem orgulho para responder essas perguntas. Percebidas tais características ou não (já que a vida é feita de evolução), …
  2. Busque novas fontes de informação: quando comecei a me preocupar com a origem das notícias/textos que lia, muita coisa mudou para melhor. Aliado a isso, deixei de temer os “textões” e comecei a me aprofundar mais nas questões inerentes a minha vida/trabalho. Fatos estes que me trouxeram segurança e tranquilidade para dialogar sobre diversos assuntos de forma ponderada.
  3. Viva experiências fora da sua rotina: tive minha visão de mundo completamente transformada a partir do trabalho voluntário. Aproximar-me de realidades distantes da que tinha, conhecer pessoas novas e me conectar com o propósito de cada entidade que tive contato, foram fatores primordiais para desenvolver meu respeito e consideração para com o próximo. Sair da zona de conforto (aquela velha história!) pode também vir a partir de outros movimentos: formações, cursos, viagens, passeios incomuns, eventos diferentes, etc.
  4. Desafie-se a dialogar com pessoas de seu dia-a-dia que você não tenha tanta proximidade: “o perigo mora ao lado” é uma frase que já ouvimos algumas vezes na vida. Confesso que já me cansei dela e prefiro pensar que “a inspiração mora ao lado”. Por isso, quando passei a trocar ideias com pessoas diferentes, minha perspectiva de mundo se ampliou. Interessar-se e valorizar a história das pessoas é uma baita ação em prol do autoconhecimento. Acredite!
  5. Retrospectiva do dia: mudar o ângulo de observação através do poder da mente é um dom que todos nós temos. Antes de dormir, tento me imaginar no alto de uma montanha. Lá embaixo, estão as cenas das ações e resultados obtidos naquele dia. Independente de como faça, relembrar todos os fatos, sentimentos, incômodos, preocupações que passaram é uma forma de aumentar sua consciência interna e, talvez, provocar mudanças.
  6. Prospectiva do dia: assim como aprofundar o que passou é importante, projetar expectativas é essencial para obter sucesso. Com a mente, imagino-me lá embaixo, com os objetivos do dia lá no topo da montanha. Isso me traz clareza e foco no que tem que ser feito.

Essas dicas que compartilhei com você, ajudaram-me e muito a sair de pensamentos/ações fundamentalistas (sem medo de assumir isso) e passar a ter pensamentos/ações fundamentais.

Espero que este texto possa te apoiar de alguma forma. Boa sorte!

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Texto escrito por Gustavo Bonafé (consultor-facilitador em desenvolvimento humano)

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